Morreu na manhã de sábado (24), em São Paulo, aos 57 anos, o empresário Constantino Júnior, fundador e presidente do conselho de administração da Gol Linhas Aéreas. Internado em um hospital da capital paulista, ele enfrentava uma longa batalha contra o câncer. Sua morte marca o encerramento de um dos capítulos mais relevantes da história recente da aviação comercial no Brasil.
Origens empresariais e visão estratégica
Herdeiro de uma tradição empreendedora, Constantino Júnior cresceu em um ambiente profundamente ligado ao setor de transportes. A família Constantino já era conhecida no país pela atuação no transporte rodoviário de passageiros, o que contribuiu para a formação de uma visão pragmática sobre logística, eficiência operacional e atendimento ao consumidor.
No final da década de 1990, em um cenário dominado por poucas companhias aéreas, tarifas elevadas e um serviço restrito a uma parcela limitada da população, Constantino identificou uma oportunidade: democratizar o transporte aéreo no Brasil. Inspirado no modelo de companhias de baixo custo internacionais, ele apostou em uma estrutura enxuta, frota padronizada e forte disciplina financeira.
A fundação da Gol e a transformação do mercado
Fundada há 25 anos pela família Constantino, a Gol iniciou suas operações com uma proposta clara: tornar o avião um meio de transporte acessível para milhões de brasileiros. A estratégia rapidamente se mostrou bem-sucedida. Com preços competitivos, alta taxa de utilização das aeronaves e foco em rotas domésticas de alta demanda, a empresa ganhou escala em pouco tempo.
Sob a liderança de Constantino Júnior, a Gol foi protagonista de uma profunda transformação no setor aéreo nacional. A companhia não apenas ampliou o acesso ao transporte aéreo, como também forçou concorrentes a reverem seus modelos de negócio, contribuindo para um ambiente mais competitivo e dinâmico.
Liderança e cultura corporativa
Reconhecido por um estilo de liderança próximo e humano, Constantino deixou marcas profundas na cultura interna da Gol. Em nota oficial, a companhia destacou que sua liderança, visão estratégica e forma de conduzir pessoas ajudaram a moldar os valores que seguem vivos na organização. A busca por eficiência, simplicidade e foco no cliente tornaram-se pilares da empresa.
Mais do que números e participação de mercado, Constantino era visto como um líder que compreendia o impacto social da aviação, enxergando o setor como um vetor de integração nacional e desenvolvimento econômico.
Crises, recuperação e novos rumos
Como grande parte das empresas aéreas globais, a Gol enfrentou desafios severos nos últimos anos, agravados pela pandemia e pelas oscilações econômicas. Recentemente, a companhia concluiu seu processo de recuperação judicial, em um movimento decisivo para reorganizar suas finanças e garantir sustentabilidade de longo prazo.
Após esse processo, o controle da Gol passou para o Grupo Abra, que também opera a Avianca, tornando-se detentor de cerca de 80% das ações da empresa. Mesmo nesse novo arranjo societário, o legado estratégico de Constantino permaneceu como referência para os rumos da companhia.
Legado para a aviação brasileira
Hoje, com cerca de 33% do mercado nacional, a Gol é um dos principais símbolos da aviação comercial no Brasil. Esse protagonismo está diretamente ligado à visão e à coragem empresarial de Constantino Júnior, que apostou em um modelo inovador em um mercado historicamente complexo.
Sua trajetória se confunde com a própria modernização do setor aéreo brasileiro. Ao aproximar o avião da rotina do cidadão comum, Constantino ajudou a redesenhar hábitos de consumo, encurtar distâncias e integrar regiões do país.
A morte de Constantino Júnior representa uma perda significativa não apenas para a Gol, mas para todo o setor empresarial brasileiro. Seu legado permanece vivo nos céus do país, nas rotas que conectam cidades e nas milhões de histórias de passageiros que passaram a voar graças à revolução que ele ajudou a construir.


