O que inicialmente foi apresentado como um caso isolado de extorsão no município de Borba (AM) passou a expor uma trama complexa que envolve denúncias de assédio sexual, possível uso indevido da máquina pública, a morte suspeita de um jovem durante uma ação policial e a atuação de uma autoridade com histórico controverso.
No centro do caso estão o empresário influente Waldyson Weckner da Palma, conhecido politicamente como “Lenda”, ex-candidato a vereador pelo PSDB, e Ana Milena Santos dos Santos, de 22 anos, presa nesta semana sob acusação de chantagear um homem casado por meio de mensagens e prints que comprovariam uma traição.
Evidências digitais contestam versão de chantagem
A narrativa apresentada pela polícia, no entanto, vem sendo contestada pela defesa de Ana Milena, que encaminhou à imprensa registros de tela, áudios e vídeos que indicariam que o empresário mantinha uma conduta reiterada de assédio sexual e importunação contra a jovem.
Segundo os materiais divulgados, Waldyson teria enviado áudios e mensagens de cunho sexual explícito, incluindo questionamentos sobre o corpo da jovem e o envio de fotos de sua genitália sem consentimento. Em outras gravações, o empresário demonstra irritação diante da rejeição, afirmando que insistia diariamente em marcar encontros.
Ana Milena afirma ainda que era perseguida e que o empresário utilizava o gabinete onde trabalhava na Prefeitura de Borba para realizar chamadas de vídeo nas quais se exibia de forma inadequada.
Morte de companheiro levanta suspeitas de execução
O caso ganha contornos ainda mais graves ao retroceder para o dia 12 de dezembro de 2025, quando Moisés Moçambique Cadacho, de 25 anos, companheiro de Ana Milena, foi morto durante uma operação policial na Rua Bom Jesus, no bairro Colônia Terra Nova.
A ação foi liderada pelo delegado Jorge Arcanjo. Vídeos gravados no local pelo repórter Anderson Batista mostram policiais colocando o corpo de Moisés no porta-malas de um veículo Onix branco sem identificação oficial, enquanto Ana Milena aparece ajoelhada, em prantos, sendo amparada por moradores.
Segundo relatos, a perícia técnica não foi aguardada e o Instituto Médico Legal (IML) não foi acionado no local, o que contraria protocolos padrão de preservação da cena do crime e causou estranheza entre profissionais da imprensa acostumados à cobertura policial.
Testemunhas afirmaram que a ação se assemelhava a uma execução, e não a um confronto, versão esta contestada pelo relatório oficial, cujos detalhes nunca foram disponibilizados integralmente à imprensa.
Histórico do delegado aumenta desconfiança
O histórico do delegado Jorge Arcanjo adiciona mais dúvidas sobre a condução do caso. Em janeiro de 2025, ele foi afastado de suas funções após ser alvo da Operação Indignos, da Polícia Civil da Bahia, que investigava uma organização criminosa suspeita de extorsão mediante sequestro, homicídios e lavagem de dinheiro.
Apesar das acusações se referirem a fatos anteriores à sua nomeação no Amazonas, Arcanjo retornou ao comando da delegacia de Borba, onde lidera a chamada “Operação Mordaça”.
Defesa aponta perseguição e conflito de interesses
Para os advogados de Ana Milena, a prisão da jovem representa um conflito de interesses envolvendo figuras políticas influentes do município. A defesa sustenta que a detenção seria uma tentativa de desviar o foco da morte de Moisés, já que, segundo eles, não há provas de que o jovem tenha reagido à abordagem policial.
Os advogados afirmam ainda que Ana Milena passou a sofrer perseguição após pedir publicamente que a imprensa investigasse o passado do delegado na Bahia.


Versão da polícia
Em coletiva de imprensa realizada nesta quarta-feira, o delegado Jorge Arcanjo classificou a prisão como um “caso emblemático”. Segundo ele, a jovem teria exigido inicialmente R$ 1.000 para não revelar à esposa da vítima mensagens e fotos da traição.
O delegado afirmou que a suspeita agia de forma estratégica, utilizando prints e mensagens persuasivas para garantir os depósitos. Sem mencionar o nome de Moisés, Arcanjo disse que a investigação se tornou mais complexa ao identificar que a mulher seria viúva de um homem morto em confronto policial, apontado como líder de um esquema de chantagem virtual.
Questionado sobre o vídeo que mostra o corpo sendo colocado no porta-malas, o delegado afirmou que “tudo foi feito da forma correta” e que o procedimento já teria sido encaminhado à Justiça.
Segundo Arcanjo, a polícia agora trabalha na extração de dados do celular da suspeita para verificar se outras pessoas teriam sido vítimas do mesmo esquema.


