Lançamento da candidatura presidencial teve público abaixo do esperado e ausências de nomes importantes do campo bolsonarista; cenário evidencia o desafio de Flávio para ampliar sua base além do PL
O primeiro grande ato da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República começou com um sinal de alerta. Realizado no domingo (16), na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, o evento teve baixa adesão e ficou distante da imagem de força popular que tradicionalmente marcou as mobilizações do bolsonarismo.
Estimativa do Monitor do Debate Político no Meio Digital, ligado à USP, apontou pico de aproximadamente 8,9 mil pessoas no ato. Imagens aéreas mostraram uma concentração que, em determinado momento, não chegou a ocupar sequer um quarteirão inteiro da Avenida Atlântica. (Revista Fórum)
A escolha de Copacabana tinha um forte componente simbólico. O local é um dos principais redutos de mobilização do bolsonarismo no Rio e já recebeu grandes manifestações ligadas ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Por isso, o tamanho da concentração acabou ganhando peso político e passou a ser interpretado como um teste inicial da capacidade de mobilização do candidato.
Mais do que o número absoluto de participantes, o episódio expôs outro problema para Flávio: a dificuldade de transformar o patrimônio político do sobrenome Bolsonaro em uma frente eleitoral mais ampla.
Ausências chamam atenção
O ato também foi marcado pela ausência de figuras importantes do campo bolsonarista. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o pastor Silas Malafaia não participaram do evento, embora ambos tenham influência significativa entre setores do eleitorado conservador. (Diário do Centro do Mundo)
Aliados de Flávio tentaram minimizar a dimensão da mobilização. O líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante, argumentou que o encontro tinha formato de comício e não de uma manifestação destinada a reunir grandes multidões. (Diário do Centro do Mundo)
A explicação, porém, não elimina o contraste com mobilizações anteriores do próprio bolsonarismo e com a expectativa criada em torno do lançamento da candidatura.
Campanha aposta na imagem de Jair Bolsonaro
No discurso, Flávio procurou reforçar a ligação com o pai. Um áudio antigo de Jair Bolsonaro foi reproduzido durante o evento, enquanto o candidato apresentou-se como herdeiro político do ex-presidente e prometeu enfrentar o que chamou de “sistema”.
Flávio também concentrou seu discurso em temas tradicionais da direita bolsonarista, como segurança pública, redução de impostos, corte de gastos e críticas ao Supremo Tribunal Federal e ao governo Luiz Inácio Lula da Silva. (Folha de S.Paulo)
O movimento revela uma equação delicada para a campanha: ao mesmo tempo em que precisa manter a fidelidade ao eleitorado de Jair Bolsonaro, Flávio precisa construir uma candidatura própria capaz de alcançar eleitores que não fazem parte do núcleo mais radical do bolsonarismo.
Isolamento político
Outro desafio está na construção de alianças. Até aqui, Flávio enfrenta dificuldades para transformar sua candidatura em uma frente que ultrapasse os limites do PL e de seu círculo mais próximo.
Análises anteriores sobre a estratégia eleitoral do senador já apontavam que a postura adotada por setores de sua campanha poderia dificultar aproximações com partidos de centro e lideranças do chamado Centrão. (YouTube)
O resultado em Copacabana, portanto, funciona menos como uma fotografia definitiva da eleição e mais como um primeiro indicador das dificuldades que a candidatura terá de enfrentar.
A campanha está apenas começando, e os atos de rua representam apenas uma parte da disputa. Pesquisas eleitorais, propaganda de rádio e televisão, alianças partidárias e desempenho nos debates ainda poderão alterar significativamente o cenário.
Mas, na largada, a imagem foi de uma candidatura que ainda não conseguiu reproduzir a capacidade de mobilização associada ao sobrenome Bolsonaro.
Um início abaixo da expectativa
Flávio Bolsonaro entrou oficialmente na corrida presidencial em um dos lugares mais simbólicos do bolsonarismo e com a missão de apresentar-se como sucessor político do pai. O que deveria ser uma demonstração de força, entretanto, terminou marcado pela baixa adesão e pelas ausências de aliados importantes.
O desafio agora é transformar o capital eleitoral herdado de Jair Bolsonaro em uma candidatura nacional capaz de atrair apoios para além do PL.
Se o ato de Copacabana não determina o resultado da eleição, ele oferece, ao menos, um primeiro retrato das dificuldades da campanha: Flávio tem o sobrenome, mas ainda precisa demonstrar que possui a mesma capacidade de mobilização política de seu pai — e que consegue construir uma coalizão própria para chegar ao Palácio do Planalto.


