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terça-feira, setembro 1, 2026

Laboratório brasileiro desenvolve vacina contra a nicotina que pode bloquear substância antes de chegar ao cérebro

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Projeto do laboratório Cristália, em parceria com pesquisadores da UFRJ, pretende criar uma nova ferramenta contra a dependência do cigarro e ajudar a prevenir recaídas

Um projeto brasileiro busca desenvolver uma vacina capaz de bloquear a ação da nicotina diretamente na corrente sanguínea antes que a substância consiga chegar ao cérebro. A iniciativa é conduzida pelo laboratório Cristália, em Itapira (SP), em parceria com pesquisadores da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O anúncio do projeto foi feito em 27 de agosto de 2026, com previsão de investimento de até R$ 150 milhões. A concepção da iniciativa é atribuída ao médico Ogari Pacheco, fundador do laboratório.

A proposta é utilizar o próprio sistema imunológico para produzir anticorpos específicos contra a molécula da nicotina. Quando a pessoa fuma, os anticorpos se ligariam à nicotina presente no sangue, formando um complexo de tamanho maior, que teria dificuldade para atravessar a barreira hematoencefálica.

Com isso, a expectativa é impedir que a nicotina alcance o cérebro e ative os receptores associados à sensação de prazer e ao mecanismo de dependência.

Como a vacina funcionaria?

Diferentemente de medicamentos que atuam diretamente no sistema nervoso central, a estratégia desenvolvida pelo Cristália busca agir apenas na corrente sanguínea.

A vacina estimularia o organismo a produzir anticorpos contra a nicotina. Após o consumo do cigarro, esses anticorpos se ligariam à substância, formando moléculas maiores e dificultando sua passagem pela barreira que protege o cérebro.

A expectativa dos pesquisadores é que, ao reduzir a chegada da nicotina ao cérebro, a tecnologia possa diminuir os efeitos de recompensa relacionados ao cigarro e contribuir para o controle da dependência.

A abordagem também poderá evitar alguns efeitos neuropsiquiátricos associados a medicamentos utilizados atualmente no tratamento do tabagismo, como a bupropiona e a vareniclina.

Projeto ainda está em fase inicial

Apesar do potencial, a vacina ainda está longe de chegar ao mercado. O projeto encontra-se na etapa inicial de desenvolvimento, chamada Early Discovery, e, até o momento, foi testado apenas em modelos animais, como roedores.

Antes de ser avaliada em pessoas, a tecnologia ainda precisará passar por estudos pré-clínicos e, posteriormente, por três fases de ensaios clínicos em humanos. Caso os resultados sejam positivos, também será necessária a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Por isso, a vacina não está disponível atualmente para tratamento do tabagismo e sua eficácia em seres humanos ainda não foi comprovada.

Desafio é garantir resposta imunológica

Uma das principais dificuldades para o desenvolvimento da tecnologia é garantir que o organismo dos diferentes pacientes produza uma quantidade suficiente e consistente de anticorpos contra a nicotina.

A ideia não é inédita. Nos Estados Unidos, pesquisas anteriores chegaram a avançar para fases mais avançadas de testes clínicos, mas apresentaram resultados insuficientes. Um dos exemplos foi a NicVAX, que não conseguiu demonstrar eficácia adequada na Fase 3, em parte devido à resposta imunológica inconsistente entre os participantes.

O desafio do projeto brasileiro será justamente desenvolver uma resposta imune suficientemente forte e uniforme para que a estratégia possa funcionar em uma população ampla.

Objetivo é combater a dependência e prevenir recaídas

Segundo a proposta do projeto, a vacina poderá ser utilizada no futuro como uma ferramenta terapêutica contra o tabagismo, especialmente para ajudar pessoas que já conseguiram parar de fumar a evitar recaídas.

A dependência da nicotina é considerada um dos principais obstáculos para quem tenta abandonar o cigarro. Ao impedir que a substância alcance o cérebro, a tecnologia pretende reduzir o mecanismo de recompensa associado ao consumo e, consequentemente, dificultar a retomada do hábito.

No Brasil, doenças relacionadas ao consumo de tabaco provocam cerca de 145 mil mortes por ano, segundo os dados apresentados pelo projeto. O cenário reforça a busca por novas estratégias de prevenção e tratamento da dependência.

Apesar da perspectiva, os pesquisadores ainda terão de demonstrar, por meio de estudos científicos e ensaios clínicos, se a tecnologia é segura e realmente eficaz em seres humanos.

Fonte: Cristália, UFRJ, Band e Not Journal.

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