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segunda-feira, setembro 21, 2026

A “máfia dos institutos de pesquisa” no Amazonas: questionamentos sobre metodologia colocam levantamentos eleitorais sob suspeita

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Por: Moisés Dutra

Suspensões, impugnações e decisões da Justiça Eleitoral envolvendo pesquisas em Manaus levantam debate sobre transparência, metodologia e eventual influência dos levantamentos na formação do voto

As pesquisas eleitorais voltaram ao centro do debate político no Amazonas. Questionamentos sobre metodologia, amostragem, registro, transparência dos dados e até decisões da Justiça Eleitoral determinando a suspensão de levantamentos alimentam a desconfiança de parte do eleitorado e colocam em discussão a credibilidade do mercado de pesquisas no Estado.

O tema ganhou força após as eleições municipais de 2024, quando diferentes levantamentos apresentaram cenários bastante distintos e alguns institutos tiveram pesquisas suspensas judicialmente. Em pelo menos um caso, o Tribunal Regional Eleitoral do Amazonas (TRE-AM) reconheceu irregularidades na execução do plano amostral e aplicou multa ao instituto responsável. (Jusbrasil)

É nesse contexto que passou a circular a expressão “máfia dos institutos de pesquisa”. A expressão, entretanto, é uma acusação política e jornalística e não corresponde, até o momento, a uma conclusão judicial de que exista uma organização coordenada para manipular pesquisas eleitorais.

Pesquisas suspensas e questionamentos na Justiça

Durante a eleição municipal de Manaus em 2024, diversas pesquisas foram alvo de ações na Justiça Eleitoral.

Em fevereiro daquele ano, por exemplo, o Partido da Mulher Brasileira (PMB) questionou judicialmente uma pesquisa do instituto InnQuest. Entre os argumentos apresentados estavam supostas falhas no registro da empresa, ausência de informações, questionamentos sobre a origem dos recursos e utilização de dados do Censo de 2010 na composição do plano amostral. A legenda pediu a suspensão do levantamento. (Manaus 360º| por Cynthia Blink)

Em março, outra pesquisa, desta vez do instituto Listening, que apontava Amom Mandel à frente de David Almeida, teve sua divulgação suspensa pela Justiça Eleitoral. A decisão mencionou problemas relacionados ao registro do levantamento e outros aspectos técnicos. (BNC Amazonas, o site de política!)

Em julho, o PL também conseguiu na Justiça a suspensão de uma pesquisa do Instituto de Pesquisa do Norte (Ipen), alegando incoerências e irregularidades. O juiz eleitoral Rafael Rodrigo da Silva Raposo acolheu o pedido liminar, considerando o risco de influência indevida sobre o eleitorado. (Amazonas1)

Já em setembro, pesquisas da AtlasIntel e do Veritá também foram alvo de decisões judiciais. No caso da AtlasIntel, a coligação do candidato Roberto Cidade questionou, entre outros pontos, a existência de perguntas relacionadas às eleições de 2022 em um levantamento registrado para medir a disputa municipal de 2024. (Radar Amazônico)

Em outubro, outra pesquisa da AtlasIntel foi suspensa pela Justiça Eleitoral. A decisão apontou questionamentos sobre a formulação dos quesitos e sobre a possibilidade de determinadas perguntas influenciarem a percepção do eleitor. (O Convergente)

Há ainda um caso que avançou para o Tribunal Superior Eleitoral. O TSE analisou recurso envolvendo uma pesquisa da A F Soares Marketing e Pesquisas de Mercado e manteve o entendimento de que houve irregularidades na execução do plano amostral, incluindo ausência de informações georreferenciais exigidas. O instituto foi condenado a pagar multa de R$ 53.205. (Jusbrasil)

O problema não é apenas o resultado

A discussão sobre pesquisas eleitorais não se resume a acertar ou errar o resultado final.

Pesquisas são fotografias de determinado momento da campanha. Por isso, oscilações são naturais e diferentes metodologias podem produzir resultados diferentes. O ponto central da discussão está em saber se o levantamento foi realizado dentro das regras estabelecidas pela legislação eleitoral e se seus dados e procedimentos permitem ao eleitor compreender como aquele número foi produzido.

A própria Justiça Eleitoral estabelece requisitos para o registro e a divulgação de pesquisas. Em decisões envolvendo Manaus, magistrados destacaram justamente a necessidade de transparência e cumprimento das regras previstas na Lei das Eleições e na Resolução TSE nº 23.600/2019. (Jusbrasil)

Quando uma pesquisa é suspensa antes de sua divulgação, portanto, isso não significa automaticamente que seus números tenham sido “fabricados”. Significa que a Justiça identificou, naquele momento processual, elementos suficientes para impedir sua divulgação enquanto os questionamentos eram analisados.

Da mesma forma, uma pesquisa que não é suspensa não está automaticamente “certificada” como correta. São questões diferentes: uma diz respeito à regularidade jurídica e metodológica; outra, à capacidade do levantamento de representar o comportamento eleitoral.

O contraste com as urnas de 2024

O resultado das eleições de Manaus em 2024 também alimentou o debate.

No primeiro turno, David Almeida terminou na primeira colocação, com 32,16% dos votos válidos, seguido por Capitão Alberto Neto, com 24,94%. Amom Mandel ficou em terceiro, com 19,10%, e Roberto Cidade em quarto, com 17,01%. (Justiça Eleitoral)

No segundo turno, David Almeida foi reeleito com 54,59% dos votos válidos, contra 45,41% de Alberto Neto — diferença de 96.874 votos. (Justiça Eleitoral)

O resultado mostra que algumas pesquisas apresentaram cenários que não coincidiram com a fotografia das urnas. Mas é importante diferenciar os casos: houve levantamentos que indicaram David na liderança, outros apontaram empate técnico ou crescimento de adversários, e alguns chegaram a projetar Alberto Neto em condições de disputar o segundo turno.

Um exemplo é a AtlasIntel de julho de 2024, que apontava David Almeida com 23%, Alberto Neto com 21,9% e Amom Mandel com 21,3%, cenário de empate técnico entre os três. (CNN Brasil)

Já uma pesquisa do Instituto Paraná divulgada no fim de julho colocava David Almeida com 30,9%, Amom Mandel com 24,5% e Alberto Neto com 11,1%. (Portal deAmazônia)

Ou seja, o próprio histórico da eleição demonstra que os institutos não apresentavam uma fotografia única do cenário.

Rejeição também virou ponto de controvérsia

Outro indicador que provocou discussão foi o índice de rejeição.

Ao longo da campanha, diferentes pesquisas apresentaram índices elevados de rejeição para alguns candidatos. A AtlasIntel, por exemplo, apontou em julho David Almeida com 51% de rejeição naquele levantamento específico. (UOL Notícias)

Já a Paraná Pesquisas, realizada no mesmo período, registrou rejeição de 23% para David Almeida, 20,3% para Alberto Neto e 16,9% para Maria do Carmo, entre outros números. (Portal deAmazônia)

A diferença evidencia um dos principais pontos que precisam ser observados pelo eleitor: pesquisas diferentes, feitas em períodos diferentes e com metodologias diferentes, podem produzir números bastante distintos.

Por isso, transformar um único índice de rejeição em uma verdade absoluta sobre determinado candidato pode levar a interpretações equivocadas.

A denúncia sobre contratos e a acusação de interferência

O jornalista Moisés Dutra também colocou o assunto em discussão em suas redes sociais. Segundo relato atribuído a ele, um proprietário de instituto de pesquisa que atualmente trabalharia para determinado candidato teria feito cobranças públicas ao prefeito David Almeida após perder um contrato com a Prefeitura de Manaus que, segundo a narrativa apresentada, teria valor próximo a R$ 20 milhões.

Ainda segundo a análise atribuída ao jornalista, depois do episódio algumas pesquisas teriam apresentado números de rejeição de David Almeida que, na sua avaliação, não corresponderiam ao comportamento observado durante a campanha e ao resultado das urnas.

Essa acusação, porém, precisa ser tratada como alegação até que documentos, contratos, mensagens, registros públicos ou decisões judiciais comprovem a relação entre eventual disputa comercial e a produção de pesquisas eleitorais.

Não foram localizados, nas fontes consultadas para esta reportagem, elementos suficientes para afirmar que a eventual perda de um contrato tenha provocado manipulação de pesquisas ou que exista uma coordenação entre institutos com essa finalidade.

A eventual existência dessa relação poderia, naturalmente, ser investigada a partir de documentos: contratos, processos administrativos, notas fiscais, registros de pesquisa no TSE, metodologia apresentada, questionários, bases amostrais e eventuais vínculos comerciais entre institutos, contratantes e campanhas.

“Voto útil” e o poder de uma pesquisa

O debate ganha importância porque pesquisas eleitorais não são apenas números publicados em uma página de jornal.

Elas podem influenciar a percepção do eleitor sobre quem está competitivo, quem tem chances de chegar ao segundo turno e quem estaria em melhores condições de vencer uma eleição.

Esse fenômeno é particularmente relevante em eleições majoritárias, nas quais o chamado “voto útil” pode fazer com que eleitores abandonem uma candidatura de preferência para apoiar outro candidato considerado mais competitivo.

É justamente por esse potencial de influência que decisões da Justiça Eleitoral destacam o risco que pesquisas irregulares podem representar para o processo eleitoral. Em decisão envolvendo Manaus, a Justiça apontou expressamente o risco de uma pesquisa supostamente irregular influenciar a opinião ou a escolha dos eleitores. (Portal Manaus Alerta)

O que precisa ser esclarecido

Mais do que discutir se determinado instituto “acertou” ou “errou”, o debate no Amazonas levanta questões que poderiam ser respondidas com transparência.

Quem contratou cada pesquisa? Quanto foi pago? Qual foi a metodologia utilizada? Qual foi o plano amostral? Quantas pessoas foram entrevistadas em cada região da cidade? Como foram escolhidos os entrevistados? Quais foram os questionários utilizados? Os dados foram coletados presencialmente ou por telefone? Houve auditoria ou algum mecanismo independente de verificação?

E, principalmente: quando uma pesquisa é questionada judicialmente, qual foi exatamente a irregularidade apontada e qual foi a decisão definitiva da Justiça?

Essas são perguntas objetivas, que podem ser respondidas com documentos.

O alerta para as próximas eleições

Os episódios de Manaus mostram que a discussão sobre pesquisas eleitorais não deveria ser tratada apenas como uma disputa entre candidatos e institutos.

Existe uma questão maior: a confiança do eleitor na informação que recebe durante uma campanha.

A Justiça Eleitoral tem mecanismos para fiscalizar pesquisas, partidos podem questionar levantamentos e institutos são obrigados a cumprir requisitos legais. Mas, diante do número de questionamentos registrados em Manaus em 2024, cresce a necessidade de que o mercado de pesquisas seja cada vez mais transparente.

Isso não significa afirmar que todas as pesquisas são manipuladas — uma conclusão que não encontra comprovação nos fatos levantados nesta reportagem. Significa reconhecer que pesquisas suspensas, metodologias questionadas e decisões judiciais apontando irregularidades justificam um escrutínio maior sobre como esses números são produzidos e apresentados ao eleitor.

No fim, a questão central permanece: quando um número divulgado como pesquisa eleitoral pode influenciar milhões de decisões, o eleitor precisa ter condições de saber não apenas qual é o percentual, mas também como ele foi obtido.

Em uma democracia, transparência metodológica não é detalhe técnico. É parte da confiança no processo eleitoral.

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