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segunda-feira, novembro 2, 2026

Eleições de meio de mandato nos EUA podem enfraquecer Trump e influenciar relação com o Brasil no novo governo Lula

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Disputa pelo controle do Congresso americano pode limitar a agenda do presidente Donald Trump e abrir novos caminhos para as relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.

As eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para esta terça-feira (3), devem ter impacto direto no cenário político americano e nas relações do país com o Brasil durante o quarto mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A votação definirá a composição do Congresso e poderá reduzir a força política do presidente Donald Trump, caso os democratas conquistem maioria em uma ou nas duas Casas legislativas.

O pleito envolve as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes, 35 das 100 vagas do Senado, além de 39 governos estaduais e territoriais e diversos cargos locais. Pesquisas de intenção de voto apontam possibilidades de avanço do Partido Democrata, cenário conhecido como “onda azul”, em referência à cor associada à legenda.

Atualmente, os republicanos controlam a Presidência, a Câmara e o Senado, o que facilita a aprovação das propostas de Trump. Uma mudança na composição do Legislativo, entretanto, poderia ampliar a fiscalização sobre o governo e dificultar o avanço de parte de sua agenda.

Relação entre Brasil e Estados Unidos

Desde o retorno de Trump à Casa Branca, em janeiro de 2025, as relações entre Brasil e Estados Unidos enfrentam um período de tensão. O presidente americano impôs tarifas sobre produtos brasileiros e sanções contra autoridades, em meio a críticas ao tratamento dado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Durante a campanha eleitoral brasileira, Lula criticou as medidas adotadas pelo governo americano e defendeu a soberania nacional. Apesar dos atritos, o presidente brasileiro manteve a busca por canais institucionais de diálogo com Washington.

Para o historiador Lucas de Souza Martins, pesquisador da Universidade Temple, Lula tem adotado uma postura pragmática nas relações com os Estados Unidos, mantendo aberta a possibilidade de negociação bilateral.

Uma eventual vitória dos democratas no Congresso poderia oferecer ao governo brasileiro novos interlocutores políticos e ampliar o questionamento das decisões de Trump relacionadas à América Latina.

Queda de popularidade de Trump

A disputa eleitoral acontece em um momento de desgaste da popularidade do presidente americano. Segundo pesquisa mencionada pela BBC News Brasil, a aprovação de Trump chegou a 31%.

Entre os principais fatores de insatisfação estão o custo de vida, a inflação, os preços dos combustíveis, a política econômica, a imigração e as alegações de corrupção. A atuação do governo em relação ao Irã e os impactos da expansão da inteligência artificial e dos data centers sobre os custos de energia também aparecem entre as preocupações dos americanos.

O desgaste também atinge grupos eleitorais que contribuíram para o retorno de Trump à Casa Branca, como jovens e eleitores de origem hispânica.

Na Câmara dos Representantes, pesquisas indicam vantagem dos democratas. Um levantamento nacional do jornal The New York Times em parceria com a Siena University, divulgado em 21 de outubro, apontou 11 pontos percentuais de vantagem para a oposição.

No Senado, a disputa é considerada mais difícil. Os republicanos possuem 53 cadeiras, enquanto os democratas contam com 45, além do apoio de dois senadores independentes. Das 35 vagas em disputa, 22 são ocupadas atualmente por republicanos.

Marco Rubio e a política para a América Latina

Outro ponto que pode influenciar a relação entre Brasil e Estados Unidos é a atuação de Marco Rubio à frente do Departamento de Estado americano, responsável pela política externa do país.

Segundo o historiador Lucas de Souza Martins, Rubio representa uma ala mais ideológica e alinhada à direita dentro do governo Trump, que disputa espaço com setores considerados mais pragmáticos na definição da política americana para o Brasil.

O pesquisador avalia que uma vitória democrata poderia aumentar a pressão sobre Rubio, especialmente por causa de suas possíveis aspirações presidenciais para 2028. Nesse cenário, a política para a América Latina poderia ganhar espaço nas críticas da oposição.

O cientista político Michael Traugott, professor emérito da Universidade de Michigan, afirma que uma maioria democrata na Câmara ampliaria a realização de audiências e investigações parlamentares sobre as decisões do Executivo.

Além da fiscalização, os parlamentares poderiam buscar impor limites orçamentários a determinadas políticas do governo.

Tarifas comerciais e possíveis mudanças

A política tarifária de Trump também pode entrar na agenda do Congresso caso os democratas conquistem maioria.

A Constituição americana atribui ao Legislativo prerrogativas relacionadas à regulamentação do comércio exterior e à aplicação de tarifas. Durante seu governo, Trump utilizou a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA) para estabelecer taxas sobre produtos de diversos países, incluindo o Brasil.

Após a Suprema Corte derrubar o uso dessa legislação para a medida, o presidente recorreu a outras bases legais para manter sua política tarifária.

A consultora Kristina Rosales, especialista em relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos e ex-porta-voz do Departamento de Estado americano, avalia que uma maioria democrata ampliaria a capacidade de fiscalização do Executivo. Entretanto, ela ressalta que Trump ainda poderia utilizar instrumentos presidenciais para dar continuidade à sua agenda.

Atuação militar dos EUA na América Latina

A política de segurança americana para a América Latina também poderá enfrentar maior fiscalização caso os democratas assumam o controle do Congresso.

Desde o ano passado, os Estados Unidos designaram mais de 20 cartéis e grupos criminosos latino-americanos como Organizações Terroristas Estrangeiras. Entre eles estão as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).

A classificação é apoiada por Flávio Bolsonaro (PL), mas contrariou a posição do governo Lula, que demonstra preocupação com a possibilidade de utilização do combate ao crime organizado como justificativa para ampliar a presença militar americana na região.

Outro ponto é o chamado Escudo das Américas, aliança regional formada por 15 países para ampliar a cooperação em segurança e o combate ao narcotráfico. O Brasil não integra o grupo.

Uma eventual maioria democrata também poderia intensificar a fiscalização de operações militares americanas no Caribe e no Pacífico, além da atuação dos Estados Unidos na Venezuela.

No Senado, a oposição teria ainda maior capacidade de interferir na aprovação de indicações para cargos do governo, embaixadas e Judiciário.

O futuro político de Trump

Mesmo com uma possível vitória democrata, o presidente americano manteria instrumentos de poder, como o veto a projetos aprovados pelo Congresso. Além disso, Trump poderia resistir às investigações parlamentares e dificultar o cumprimento de intimações.

Uma mudança no Legislativo, porém, poderia tornar os dois últimos anos de sua Presidência mais difíceis.

Na política americana, o período final do segundo mandato presidencial costuma ser associado à expressão lame duck, traduzida como “pato manco”, utilizada para descrever a redução da influência política de um governante próximo de deixar o cargo.

Para o Brasil, o possível enfraquecimento de Trump representa tanto uma oportunidade quanto um desafio. Segundo Kristina Rosales, o governo Lula precisará manter o diálogo com a administração americana e, ao mesmo tempo, construir relações com novos atores políticos que podem ganhar protagonismo na preparação para as eleições presidenciais de 2028.

A avaliação é que o futuro das relações entre Brasil e Estados Unidos dependerá não apenas do diálogo entre os presidentes, mas também da relação com as instituições e forças políticas que influenciam as decisões em Washington.

Fonte: Alessandra Correa – BBC News Brasil.

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