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sábado, setembro 5, 2026

África está se partindo? Estudo revela como um novo oceano pode surgir e separar o continente

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Pesquisadores identificaram uma região no leste da África onde a crosta terrestre está sendo esticada e já apresenta sinais de um estágio importante que antecede uma possível ruptura continental

A África Oriental passa por um processo geológico que, ao longo de milhões de anos, pode transformar o mapa do continente. Pesquisadores identificaram na região de Turkana, no Quênia, uma área onde a crosta terrestre já afinou para aproximadamente 13 quilômetros.

A descoberta integra um estudo publicado em 2026 na revista científica Nature Communications e mostra que a região atingiu uma etapa importante da evolução de um rifte continental, estrutura formada pelo processo de extensão da crosta.

O fenômeno ocorre em uma escala de tempo muito diferente da humana. O contínuo afastamento e afinamento da crosta pode, caso o processo prossiga, levar à ruptura completa do continente e, posteriormente, à formação de uma nova bacia oceânica.

Crosta terrestre chegou a aproximadamente 13 quilômetros

A crosta terrestre possui espessuras diferentes dependendo da região. Em áreas continentais, normalmente apresenta dezenas de quilômetros de espessura.

Na Zona de Rifte de Turkana, porém, os pesquisadores encontraram a crosta cristalina reduzida a aproximadamente 13 quilômetros no eixo do rifte.

Para chegar ao resultado, o estudo combinou dados sísmicos de alta resolução, informações obtidas em poços e observações geológicas realizadas na região.

A espessura encontrada é compatível com uma fase conhecida pelos geólogos como “necking”, estágio em que a deformação provocada pelo estiramento se concentra e a crosta passa por um afinamento significativo.

De forma simplificada, o processo pode ser comparado a um material que é puxado pelas duas extremidades e começa a ficar mais fino em determinada região antes de se romper.

No caso de um continente, entretanto, esse processo ocorre em enormes dimensões e pode levar milhões de anos.

Afinamento mais intenso começou há cerca de 4 milhões de anos

Segundo os pesquisadores, a atual fase de afinamento mais intenso em Turkana começou há aproximadamente 4 milhões de anos.

A história geológica da região, no entanto, é mais antiga. Turkana já havia passado por episódios anteriores de extensão da crosta, deixando estruturas que posteriormente poderiam ser reutilizadas pelo atual sistema de riftes.

De acordo com o estudo, essa herança geológica, combinada ao enfraquecimento relacionado à atividade magmática mais recente, pode ter contribuído para que Turkana atingisse a fase de necking.

A descoberta também indica que diferentes áreas do Sistema de Riftes da África Oriental podem estar em estágios distintos de evolução.

Mais ao norte, a região de Afar apresenta sinais ainda mais avançados relacionados à separação das placas tectônicas.

Por que a África está se partindo?

O processo está relacionado ao Sistema de Riftes da África Oriental, uma extensa região tectonicamente ativa onde a litosfera — camada rígida formada pela crosta e pela parte superior do manto — está sendo esticada.

À medida que os blocos tectônicos se movimentam, a crosta sofre deformações, formação de falhas e afinamento.

Outro elemento envolvido está localizado em grandes profundidades. Um estudo publicado em 2023 no Journal of Geophysical Research: Solid Earth investigou a influência da chamada African Superplume, uma grande região de material anormalmente quente que ascende no manto terrestre abaixo da África.

Por meio de modelos termomecânicos tridimensionais e dados de movimentação da superfície, os pesquisadores encontraram evidências de que o fluxo do manto associado à superpluma ajuda a explicar parte das deformações observadas ao longo do Rift da África Oriental.

Isso não significa que uma única estrutura subterrânea esteja “rasgando” o continente. A abertura do rifte envolve diferentes forças tectônicas. A pesquisa, porém, mostra que processos que ocorrem nas profundezas do planeta também participam das transformações observadas na superfície.

Um novo oceano pode surgir?

A possibilidade existe, mas não no futuro próximo.

A formação de oceanos pode fazer parte da evolução de sistemas de riftes continentais quando o processo de extensão continua até provocar a ruptura completa da litosfera.

Primeiro, a crosta continental é esticada. Depois, determinadas regiões ficam progressivamente mais finas. Em estágios posteriores, a separação pode avançar até que o continente se rompa.

A partir desse ponto, a expansão do fundo oceânico pode criar nova crosta e, ao longo do tempo geológico, formar uma bacia oceânica entre as massas continentais que se separaram.

O Mar Vermelho é citado como exemplo de um estágio mais avançado desse tipo de processo tectônico.

Isso, porém, não significa que exista uma data prevista para a divisão da África. O estudo de 2026 não estabelece em quantos milhões de anos uma eventual ruptura completa poderia ocorrer e também não prevê quando um novo oceano surgiria.

A descoberta mostra algo mais específico: em Turkana, uma região atualmente submetida à extensão continental, a crosta já atingiu aproximadamente 13 quilômetros e apresenta características compatíveis com uma importante fase de afinamento que antecede estágios mais avançados da ruptura continental.

Região também ajuda a entender o passado da humanidade

O processo geológico observado em Turkana também possui relação com o registro fóssil da região.

Turkana possui um dos registros fósseis importantes para o estudo da evolução humana. Segundo os pesquisadores, o afinamento da crosta provocou subsidência, processo no qual determinadas áreas da superfície afundam gradualmente.

Esse movimento criou espaço para o acúmulo de grandes quantidades de sedimentos ao longo do tempo.

As camadas sedimentares formadas na região ajudaram a preservar fósseis e outros vestígios utilizados para reconstruir parte da história evolutiva humana.

Assim, o mesmo processo tectônico que atualmente oferece pistas sobre o possível futuro geológico da África também contribuiu para a formação das condições que permitiram preservar registros de seu passado.

“Batimentos” do manto ajudam a explicar a separação

Outro estudo, publicado em junho na revista Nature Geoscience, investigou o comportamento do manto terrestre na região de Afar, no nordeste da Etiópia.

Um grupo internacional de cientistas identificou que o calor vindo das profundezas da Terra está associado ao processo de estiramento do terreno no leste africano. Segundo a pesquisa, esse fluxo de material quente não ocorre de maneira contínua, mas em intervalos cíclicos.

A região de Afar é um ponto de encontro de três grandes sistemas de rifte: o Rifte da África Oriental, o Rifte do Mar Vermelho e o Rifte do Golfo de Áden. Nesse local, as placas tectônicas se afastam lentamente.

Os pesquisadores analisaram mais de 130 amostras de rochas vulcânicas coletadas no nordeste da África e combinaram os dados com modelagens estatísticas.

Os resultados indicaram a presença de um grande reservatório de material quente, conhecido como pluma mantélica, que sobe do interior da Terra.

Segundo os autores, essa pluma é assimétrica e apresenta faixas químicas que se repetem, formando padrões descritos como “códigos de barras” geológicos.

A geóloga Emma Watts, que liderou a pesquisa, explicou que o manto sob Afar não é uniforme nem está parado e que essas pulsações carregam diferentes assinaturas químicas.

O comportamento foi comparado pelos pesquisadores a um “batimento cardíaco” geológico. Em áreas onde as placas se afastam mais rapidamente, como no Mar Vermelho, essas pulsações seriam transportadas de maneira mais eficiente e regular.

Processo pode levar dezenas de milhões de anos

Apesar das mudanças observadas, os cientistas destacam que a separação continental é um processo natural e extremamente lento.

Pode levar dezenas de milhões de anos até que uma eventual separação seja completa e um novo oceano surja.

O acompanhamento das transformações no Chifre da África permite compreender também processos semelhantes que ocorreram no passado. O oceano Atlântico, por exemplo, surgiu a partir da fragmentação da Pangeia, quando o supercontinente começou a se romper há cerca de 150 milhões de anos.

A evolução atual do leste africano, portanto, oferece aos pesquisadores uma oportunidade de observar um processo geológico que pode ajudar a compreender como grandes massas continentais se separam ao longo do tempo.

As próximas etapas da pesquisa incluem compreender melhor como e em que velocidade o fluxo do manto ocorre sob as placas tectônicas.

Fontes: Diário do Litoral e G1

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